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‘Essa crioula quer aparecer’: delegada diz ser julgada na internet após denunciar racismo na Zara

 Ana Paula Barroso descreve impacto de comentários negativos nas redes sociais, mas afirma estar “de alma lavada” após inquérito policial atestar racismo

                   Foto: Kid Júnior

“Nunca foi sobre máscaras: foi sempre racismo.” Nomear, agora, de modo mais firme e enfático o possível motivo que a fez ser expulsa da loja Zara, em setembro, traz à delegada cearense Ana Paula Barroso, 38, uma sensação que há semanas não experimentava: a de “alma lavada”.

O semblante mais leve e os sorrisos mais frequentes traduzem no rosto a sensação de “paz e alívio” após a Polícia Civil do Ceará ter indiciado o gerente do estabelecimento por racismo, pondo fim à saga diária de Ana Paula de “precisar provar que estava falando a verdade”.

Na manhã desta quinta-feira (21), sentada à cadeira que ocupa no Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPGV) – um “ambiente livre de racismo”, como o quadro na parede faz questão de lembrar –,  a delegada descreveu o incômodo gerado pelos comentários depreciativos que lia na redes sociais. Lia coisas como "‘essa crioula quer aparecer". Pela saúde mental, não lê mais.

O que sinto agora é a certeza de uma verdade que eu já sabia: foi racismo, as imagens falam por si. Pra quem me conhece, minha palavra já bastava, mas muitos julgaram se tratar de ‘mimimi’.

A investigação do caso foi concluída pela polícia nessa segunda-feira (18), pouco mais de um mês após o episódio no shopping de Fortaleza, e revelou, entre outros detalhes, que a Zara aplica um código para discriminar clientes: o “Zara zerou”.

Segundo depoimentos ao inquérito, a frase era disparada nos alto-falantes do estabelecimento após a entrada de pessoas negras e julgadas como “mal vestidas” – o que, ao ver da juazeirense, atesta por si a conduta discriminatória praticada no local.

“REPRESENTO QUEM NÃO CONSEGUIU VERBALIZAR SUA DOR”

Em poucos minutos de conversa, é possível notar que, para Ana Paula, enfrentar a luz forte das câmeras, dar entrevistas e relembrar o episódio racista que sofreu gera desconforto: mas que, por outro lado, virou instrumento de luta.

A partir da exposição do caso dela, os relatos de outras pessoas que enfrentaram situações semelhantes na Zara ou em outros estabelecimentos têm se multiplicado, o que fortalece em Ana Paula a fé de que “Deus a usou por um propósito maior”.

A delegada narra que, há poucos dias, enquanto fazia as unhas, dizia a uma amiga, por telefone, que desistiria do processo: estava cansada demais. Foi quando viu a manicure começar a chorar e pedir que não desistisse – ela já havia passado pelo mesmo, mas, ao contrário de Ana Paula, não conseguiu as imagens para provar.

Eu fiquei com vergonha de mim mesma, vendo no vídeo eu saindo da loja, os gestos do gerente pra mim. Precisei me encorajar, porque pensei em deixar pra lá. Mas estou, de certa forma, a representar muitos que não conseguiram verbalizar a sua dor.

Esses “muitos”, segundo ela, se retraem justamente pelo que ela tem passado: “pelos comentários depreciativos, de pessoas que desacreditam, não têm sensibilidade, empatia, duvidam da tua dor, menosprezam o fato. Isso só me mostrou que o racismo, de fato, existe”.

“NÃO TENHO NENHUMA MÁGOA DESSE RAPAZ”

Enxergar – e experimentar – que a cor da pele ainda passa à frente, rotula e vira arma para ferir alguém aprofundou o sentido que sustenta o trabalho diário que Ana Paula faz em apoio às vítimas que chegam ao DPGV – afinal, “por mais empatia que tenha, só entende quem passa”.

Quando alguém me disser que sofreu racismo, vou dizer: ‘eu sei o que é isso, e a próxima fase é que as pessoas vão te questionar, e depois você vai ter uma briga pra comprovar que está falando a verdade. Mas você precisa fazer isso’.

No roteiro de planos que a delegada traçava para a própria vida, não havia capítulo algum dedicado ao turbilhão que tem encarado. Não esperava passar de protetora a vítima, de cliente a risco, de cidadã a algoz. Não pretendia ver a família preocupada, a saúde mental abalada, a rotina revirada ao avesso para provar que é inocente num crime que sofreu.

Tudo isso causado, segundo mostra inquérito policial, por uma atitude simples, mas imensa e cruel: expulsar alguém de uma loja por uma aparência considerada inadequada. Conduta geral da Zara e reproduzida por, pelo menos, um dos milhares de funcionários ao redor do mundo: o gerente Bruno Filipe Simões Antônio.

“Eu não tenho nenhuma mágoa desse rapaz. A questão foi a conduta dele, que é a de muitos outros que fazem e ainda farão o mesmo. Se eu o visse aqui, hoje, diria que ele tem consciência do que fez, e perguntaria se realmente vale a pena tratar as pessoas dessa forma. A questão não é o mocinho e o bandido: é a pauta, que não está repercutindo à toa”, sentencia Ana Paula.







Fonte: Reprodução Diário do Nordeste

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