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Cariri é um celeiro cultural! Mas graças a quem? (OPINIÃO)

Imagem: Reprodução/ Arquivo Pessoal

Coluna de opinião por Sued Carvalho

Muito se fala sobre o Cariri ser um celeiro cultural. Muito se fala, mas pouco se faz! Recentemente foi anunciado o fechamento e venda do prédio onde se localizava o Centro Cultural Banco do Nordeste. Grupos artísticos, movimentos sociais e Partidos de Esquerda formaram o Fica CCBNB reivindicaram a permanência da instituição onde ela sempre esteve, alegando que sua vinda para Juazeiro do Norte foi fruto de muita luta da categoria.

O Banco do Nordeste se justificou, afirmando que o prédio estava irregular e que sua reforma custaria aproximadamente três milhões de reais. Diante dessa alegação tudo ficou claro: O BNB não queria arcar com os custos da reforma! Isso apenas constata o sucateamento do setor cultural em nosso país, pois o que são três milhões para um banco cujo capital está estimado em 58, 6 bilhões? A questão central é: No Brasil a cultura não é vista como digna de investimento.

A prefeitura de Juazeiro do Norte ofereceu os prédios ligados a Secretaria de Cultura do município para o usufruto do CCBNB, para que as atividades do centro não cessassem. Os diretores da Instituição alegaram que só haveria vantagem para a população juazeirense, pois o Teatro Marquise Branca e outros prédios estariam abandonados e agora ganhariam vida. À primeira vista parece bom negócio, mas quando olhamos com mais calma o sucateamento é evidente: A Prefeitura está terceirizando ao CCBNB a revitalização dos espaços culturais da cidade.
Percebam a gravidade: Em vez de Juazeiro do Norte desenvolver uma política de fomento cultural robusta a ser executada em espaços como, por exemplo, o Teatro Marquise Branca, para concorrer de forma construtiva e colaborativa com o SESC e CCBNB, o que está acontecendo, na prática, é uma terceirização.
Esse é o estado atual na política cultural de Juazeiro do Norte, que sempre foi terra árida para a produção cultural. Nesse deserto que só fica mais seco, no entanto, resistem alguns oásis, Coletivos independentes de artistas que vendem seu material nas ruas, apresentam-se em praças e em espaços mais alternativos, assim como buscam não apenas produzir, mas também mostrar que a cultura no Cariri é diversa.

Coletivos como o Satírika, que desde 2016 publicam livretos literários e quadrinhos no triângulo Crajubar é um exemplo de grupo que, de forma independente, com os próprios meios, produz material cultural com uma estética contemporânea, como explica Dineids Sampaio, uma das escritoras da Satírika:
“A gente se esforça em fugir daquela estética estereotipada de Nordeste, a gente respeita nossa História, é claro, mas o Juazeiro não é apenas romaria, Padre Cícero e cordel. O Cariri é uma região integrada ao resto do Brasil, globalizada, que recebe todo tipo de influência. Queremos retratar o Cariri do Século XXI nos nossos trabalhos.”
Iniciativas desse tipo são numerosas na região, o Coletivo Estação 9, o Ponto de Cultura Hip Hop, a revista Bárbaras, Coletivo Camaradas, Radio Cafundó, Slam das Minas, etc. A cultura é uma necessidade humana e, como tal, não deixa de existir por falta de investimento governamental. 

Artistas do Cariri, por inciativa própria, carregam nas costas a produção cultural da região, não apenas ao imprimir livretos, revistas e organizarem batalhas de rap, mas também ao discutir o que é Cultura Popular atualmente.
A cultura Popular é apenas o Cordel? O repente? De forma alguma, cultura popular é o que movimenta os jovens e os trabalhadores em geral em determinada época. Quadrinhos regionais, rappers locais, novelistas, escritores e novelistas são cultural popular! A cultura não é uma pedra sólida e imóvel, mas flexível, circular, inovadora. A cultura não é aquilo que permanece, mas sim transformação.

Se o Cariri é um celeiro cultural não é graças a Prefeitura de Juazeiro do Norte, do Crato, de Barbalha ou outra qualquer, mas graças a inventividade e disposição dos próprios artistas que, diante da aridez dos investimentos públicos e da mesquinha política de editais, arregaçam as mangas e constroem eles mesmos seus espaços.

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