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Há vinte anos voava para a eternidade Patativa do Assaré

Poeta cearense atravessa gerações e é fenômeno da nossa cultura popular

Imagem: Reprodução/Sheyla Fontes

“Seu doutor, me dê licença pra minha história contar”, assim quero começar meu texto de hoje. Não para relatar sobre minha vida, mas a existência de um poeta, repentista e compositor que tem uma identificação com muitos nordestinos. No dia 8 de Julho de 2002 voava um dos maiores nomes da cultura popular do nosso país, o eterno Patativa do Assaré. 

Antônio Gonçalves da Silva era filho de agricultor e não conhecia as letras, mas a poesia sempre foi viva em sua alma, até pelo apelido de “Patativa”, já que este foi dado pelo escritor José de Carvalho Brito, fazendo comparação do cearense com a ave. Assim, aquele menino marcado pela pobreza do sertão foi recriando seu mundo.

Escrever sobre a história do Patativa é difícil, afinal, ele dominava muito mais as palavras do que eu, agora é importante frisar sua importância histórica o que dá ao seu trabalho a perpetuação pelo tempo. Natural de Assaré, o cearense começou a cantar repentes aos 16 anos, tudo de improviso. Na nossa região, esse estilo de cantar já era uma tradição antiga, mas foi com o Patativa que os repentes ganharam todo o Brasil. 

O BRASIL DE PATATIVA
Infelizmente, nosso país voltou ao “Mapa da Fome das Nações Unidas”, isso não é algo mascarado, ao contrário, é visto de formas dolorosas nos cruzamentos das ruas em placas e apelos por comida. Esse é o Brasil de 2022 e não é errado dizer que estamos vivendo um grande retrocesso. 

Nas primeiras décadas do século XX, o Nordeste brasileiro passou por uma grave crise hídrica. O livro “O Quinze” da imortal Rachel de Queiroz retrata muito bem esse período. Com a fome e a seca, o êxodo rural foi enorme e o principal destino era o Sudeste do país. Em 1950 mais de dois milhões de nordestinos moravam fora de sua terra natal. Só do Ceará, 13% da população havia imigrado.
Perdido no meio dos prédios e da industrialização, o sertanejo ficou órfão e tendo o grito por ajuda mais uma vez abafado. É nesse momento que ídolos da nossa região ganham fôlego e nos representaram bem no cenário nacional. O maior deles foi o Rei do Baião Luiz Gonzaga. 
Nesse momento, compactuando com o desejo dos filhos destas terras tão sofridas, as composições do nosso Patativa ganharam espaço e até a emoção dos nordestinos. Foi em 1964, quando em “Triste Partida”, a parceria foi gravada. Por acaso ou não, a letra ganhou popularidade no ano da implantação do Regime Militar, e todo aquele pavor, mesmo que indiretamente virou tema de muitas lágrimas de saudade do seu Estado. 

A parceria foi tão forte mas não rendeu muitos frutos. Foi a única música que os dois gravaram juntos. Ainda assim, a vida musical de Patativa prosperou, inclusive dos versos que iniciei esse texto reforçam isso. “Vaca Estrela e Boi Fubá” foi gravada em 1977 por Raimundo Fagner, e virou grande sucesso. Dois anos depois, o veterano foi ovacionado  no Theatro José de Alencar na chamada “Semana de Arte Moderna Cearense", que foi o movimento Massafeira Livre unindo gerações.

CENTENÁRIO E CONSAGRAÇÃO
Em 2009, o centenário do compositor foi comemorado postumamente em estátuas, praças, prêmios e documentários e veio sua consagração total. O analfabeto do interior do Ceará virou poeta e demonstrou que a cultura popular pode sim chegar aos altos patamares da intelectualidade.
Antônio Gonçalves da Silva virou Patativa do Assaré, teve voos altos e inimagináveis até por ele mesmo. O repente simples e improvisado marcou a memória de um país, que segue o retribuindo com fascínio e reverência. Não sei se o cearense foi o maior de todos, mas sem qualquer dúvida, abriu as portas para um novo compreendimento de manifestação das artes.
Há 20 anos perdíamos sua existência física e inquieta, mas ganhávamos um legado imortal de superação, vitórias sem perder o ar simples de autenticidade. Viva a ave que se fez humana para colocar em versos no nosso sertão. Viva o Patativa que felizmente nasceu em Assaré!

Reprodução: Diário do Nordeste

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