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Os condomínios fechados e o “Efeito Frankenstein” (OPINIÃO)

 

Imagem: Reprodução/ Redes Sociais 

Coluna de opinião por Sued Carvalho

Na última quarta-feira, pela manhã, eu conversava com um camelô da Rua São Pedro em Juazeiro do Norte e fiquei impressionada com a clareza de sua argumentação sobre a questão da segurança pública. O comerciante disse que os condomínios fechados, cercados e fortemente vigiados são “efeito Frankenstein”, pois nada mais representam do que os muito ricos se protegendo dos efeitos da desigualdade social, assim como Doutor Frankenstein sendo atormentado pelo Monstro criado por si no romance clássico de Mary Shelley.

Impressionada com a perspicácia do camelô, comecei a refletir a respeito e, de fato, faz sentido. Os condomínios fechados cresceram bastante nos últimos dez anos em Juazeiro do Norte, principalmente nos bairros Lagoa Seca e Cidade Universitária. Esses espaços são fabricados e vendidos à preços exorbitantes como sendo a solução para o problema da segurança pública.

Nada mais são, na verdade, do que o poder daqueles mais abastados de se afastar dos problemas causados pela desigualdade, fingindo que não existem. Dentro dos muros do condomínio a paz, a proteção e a segurança, fora há o caos e o perigo. É a arquitetura fruto da concepção da segurança pública como guerra. Quem ganha com isso? Lobbys da indústria armamentista, empresas de segurança privada, seguradoras e construtoras. Interessa a poucos resolver, de fato e pela raiz, o problema da segurança pública no Brasil, muitos ganham com o medo que os ricos têm dos mais pobres.

E é esse o “Efeito Frankenstein”, o Ceará tornou-se o Estado com maior número de bilionários do Nordeste (FORBES) ao mesmo tempo (E talvez em função disso) tem 33% de sua população (Cadastro único), o equivalente a três milhões de pessoas, na extrema pobreza, além dos 2,7 milhões de inadimplentes (SERASA), tudo isso associado a uma taxa de desemprego de 12,4% (IBGE). Nenhuma solução à vista, nenhuma medida afirmativa planejada. O resultado evidente da desigualdade? Expansão das periferias, aumento da presença do tráfico, dos crimes de roubo e furto, etc. A solução? Mais policiamento para os pobres, condomínio fechado para os ricos.
A criatura, a desigualdade social, atormenta o criador, a burguesia cearense. Efeito Frankenstein.
É evidente que a violência nas cidades é um problema! É evidente que o crime é um problema! Mas por mais policiamento que se coloque nas ruas, a criminalidade não diminui, os assaltos não diminuem! Segundo dados do Monitor da Violência, nosso Estado tem quinto maior número de homicídios do Brasil até o presente dia do ano corrente, com 755 mortes. Algo está errado! A política de segurança pública baseada em policiais fortemente armados, andando de moto nas nossas avenidas com rifles e fuzis em riste não está funcionando! Os números estão ai!

É preciso resolver o problema da desigualdade social urgente no Estado do Ceará. Um filho desesperado ao ver os pais desempregados se verá tentado a roubar para colocar comida na mesa, assim como um pai que não sabe o que dará de comer aos filhos é um alvo para o tráfico.
Quem ganha com a violência pública? Aqueles que vendem armas para o governo do Estado (E para as milícias), imobiliárias que vendem condomínios, empresas de segurança privada e programas policiais que vivem de mostrar as maiores atrocidades. Quem perde? A população cearense como um todo, majoritariamente pobre.
Está provado! Os números estão ai! Segurança pública não é guerra! Policiamento ostensivo, sozinho, não tem resolvido o problema! Alguém se sente mais seguro no Ceará de 2022? Só dentro dos condomínios fechados, talvez. Nós, aqui fora, convivemos ou com o crime ou com a possibilidade de nos tornarmos criminosos.
Frankenstein cria o monstro, para logo em seguida fugir dele.

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1 Comentários

  1. Pensei numa matéria besta sempre colocando o rico com o pobre.

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